Viés de confirmação na entrevista forense: quando a hipótese começa a dirigir a prova
Viés de confirmação é a tendência de buscar, valorizar e interpretar informações de maneira mais favorável à hipótese que já consideramos verdadeira. Na entrevista forense de crianças e adolescentes, o risco é especialmente sensível: se o profissional entra no ato convencido de que determinado abuso ocorreu, essa convicção pode influenciar quais perguntas formula, quais respostas aprofunda e quais informações deixa de explorar. O problema não está em formular hipóteses. Está em esquecer que uma hipótese precisa ser testada, e não confirmada.
Os dois primeiros textos desta série trataram da qualidade do depoimento especial de crianças e do risco das perguntas sugestivas. Há, porém, uma etapa anterior à própria pergunta: o estado cognitivo de quem pergunta. Protocolos de entrevista reduzem o espaço para indução, mas nenhum protocolo transforma o entrevistador em observador cognitivamente neutro. A psicologia aplicada ao contexto forense demonstra que convicções preliminares podem influenciar tanto a coleta quanto a interpretação da informação.
Uma entrevista, afinal, não começa quando o gravador é ligado. Antes disso, o profissional pode já ter recebido uma narrativa: boletim de ocorrência, relato de familiar, encaminhamento da escola, prontuário ou informações produzidas durante a investigação. Esse material pode ser necessário para compreender o contexto, mas também pode funcionar como âncora cognitiva. A primeira versão conhecida passa a servir como referência para aquilo que vem depois.
É nesse ambiente que o viés de confirmação encontra terreno fértil. Informações compatíveis com a hipótese inicial chamam mais atenção; elementos discrepantes podem parecer menos relevantes ou ser reinterpretados para caber na narrativa previamente construída. Em crimes sexuais, nos quais a gravidade da suspeita mobiliza forte resposta emocional e o relato frequentemente ocupa posição probatória central, essa assimetria merece vigilância redobrada.
O risco não exige má-fé. Ao contrário: justamente porque o viés de confirmação pode operar sem percepção consciente, experiência profissional e boas intenções não bastam para neutralizá-lo. O entrevistador pode acreditar sinceramente que está apenas esclarecendo um ponto quando, na prática, insiste naquilo que confirma sua expectativa.

Como o viés de confirmação altera perguntas e conclusões
A literatura experimental oferece um dado especialmente relevante. Estudo publicado em 2022, construído a partir de mais de duas mil entrevistas simuladas envolvendo suspeita de abuso sexual infantil, verificou que entrevistadores que partiam da suposição de que o abuso havia ocorrido apresentavam maior confiança nessa hipótese, utilizavam com maior frequência tipos de perguntas não recomendados e alcançavam menos conclusões corretas. A hipótese formada antes da entrevista também predisse a conclusão alcançada depois dela.
Esse resultado ajuda a compreender por que perguntas sugestivas e viés de confirmação frequentemente caminham juntos. Quem acredita conhecer a resposta tende a testar positivamente sua hipótese: pergunta mais sobre aquilo que espera encontrar e menos sobre alternativas capazes de contradizê-la. A entrevista deixa de funcionar como procedimento de obtenção de informação e começa, silenciosamente, a funcionar como mecanismo de validação.
O fenômeno alcança também a interpretação das respostas. Na mesma pesquisa, os entrevistadores que presumiam a ocorrência de abuso utilizaram de maneira menos eficiente as informações relevantes disponíveis para alcançar a conclusão correta. Isso revela algo decisivo para o processo penal: não basta controlar a formulação das perguntas. Também é necessário examinar o tratamento dado às respostas que contrariavam a expectativa inicial.
Em outras palavras, uma resposta incompatível com a hipótese não pode ser tratada apenas como obstáculo a ser superado. Ela é informação. Quando o entrevistador insiste até obter uma narrativa compatível com sua expectativa, o problema deixa de estar exclusivamente na pergunta e passa a atingir a própria lógica da investigação.
Entrevista forense exige método para testar hipóteses
Uma entrevista forense de qualidade precisa criar mecanismos de proteção contra a própria cognição de quem entrevista. Perguntas abertas, narrativa livre, gravação integral e protocolo estruturado cumprem precisamente essa função: reduzem o espaço para que convicções pessoais ditem o percurso da entrevista.
O contraditório deveria alcançar esse nível. Ao analisar um depoimento especial, interessa saber quais informações o entrevistador possuía antes do ato, qual hipótese preliminar havia formado, como reagiu a respostas incompatíveis com essa hipótese e se explicações alternativas foram efetivamente exploradas. Perguntar sobre método não significa acusar o profissional de parcialidade. Significa verificar se o procedimento possuía salvaguardas contra um fenômeno cognitivo conhecido.
Esse controle precisa ser simétrico. A defesa não está imune ao viés de confirmação. Quem entra no processo convencido de que toda acusação é falsa também pode selecionar apenas inconsistências, minimizar elementos corroborativos e formular perguntas dirigidas exclusivamente à hipótese defensiva. O compromisso epistemológico exige que acusação, defesa, profissionais técnicos e julgador procurem também a informação capaz de desconfirmar suas próprias teses.
Esse talvez seja o teste mais difícil de qualquer investigação: não perguntar apenas “o que confirma aquilo em que acredito?”, mas também “o que eu esperaria encontrar se minha hipótese estivesse errada?”.
Nos crimes sexuais, neutralidade precisa ser construída
A neutralidade relevante para o processo penal não significa ausência de crenças. Isso seria cognitivamente irreal. Neutralidade significa a existência de método suficiente para impedir que crenças preliminares controlem a produção da prova sem serem percebidas.
Por isso, o viés de confirmação deve integrar a formação dos entrevistadores, a preparação das partes e a valoração judicial do depoimento especial. A pergunta não pode ser apenas se o protocolo foi nominalmente utilizado, mas se a entrevista permitiu explorar informações incompatíveis com a hipótese predominante. Um procedimento pode seguir etapas formais e, ainda assim, estar cognitivamente orientado para um único resultado.
Nos crimes sexuais, esse cuidado não reduz proteção. Aumenta a qualidade da investigação. Uma entrevista capaz de testar hipóteses concorrentes protege a criança de sucessivas tentativas de confirmação, oferece ao julgador informação mais confiável e reduz o risco de transformar uma convicção preliminar em prova circular.
O viés de confirmação não demonstra que uma acusação seja falsa. Tampouco autoriza desprezar a palavra da vítima. Ele ensina algo mais exigente: quanto mais grave a hipótese, maior deve ser a disciplina necessária para testá-la.
No processo penal, procurar a verdade exige também procurar aquilo que pode demonstrar que estávamos errados.
Gabriel Ferreira Santos é advogado criminalista.
Fontes consultadas
- ZHANG, Yikang; SEGAL, Aleksandr; POMPEDDA, Francesco; HAGINOYA, Shumpei; SANTTILA, Pekka. Confirmation bias in simulated CSA interviews: How abuse assumption influences interviewing and decision-making processes? Legal and Criminological Psychology, 2022.
- O’DONOHUE, William; CIRLUGEA, Olga. Controlling for Confirmation Bias in Child Sexual Abuse Interviews. Journal of the American Academy of Psychiatry and the Law, 2021.
- CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA; UNICEF; CHILDHOOD BRASIL. Protocolo Brasileiro de Entrevista Forense com Crianças e Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência. Brasília: CNJ, 2020.
- Resolução Conjunta CNJ/CNMP nº 16/2026.
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